16.3.18

O meu manjericão quer pôr termo à vida

Eu acho que o meu manjericão se está a suicidar. É que eu comprei-o na semana passada, airoso e vibrante que só ele, debaixo daquela luz artificial tenebrosa de supermercado, e o gajo, passados apenas dois dias, começa logo a dar de si. Eu não acho isto normal... então, quer dizer, eu trago-o para casa com todo o sacrifício (sim, porque atravessar metade da Almirante Reis de manjericão na mão, não é fácil), para estar à janela da cozinha, com vidraças imponentes e com uma vista espectacular para o prédio da frente, e ele começa logo com estas frescuras, assim a mandar aquela indireta de que vai pôr termo à vida?? Uma coisa é estar deprimido, outra coisa é começar todo ele a ficar murcho. Recuso-me a aceitar que não consigo que um manjericão dure mais de um mês nesta casa... É que não tarda muito, estou no Google a pesquisar como conseguir que um manjericão não morra numa semana!! Será que lhe falta uma manjericona??? 


27.2.18

Foge Como se não houvesse Amanhã





































Eu sei que anda toda a gente muito ocupada a ver Secret Story, edição 1745, mas espero que estejam conscientes de que falta 5 dias para os Oscares, e ainda me sobram para cima de 4 filmes para ver. Eu apercebi-me disso hoje. "Ai falta imenso tempo, é uma eternidade", pensava eu no inicio do mês. NÃO, NÃO FALTA. Sem saber que viria a estar na corrida para os Óscares, este foi o primeiro filme que vi do lote da mais importante categoria do certame. Não pensei que pudesse vir a ser nomeado para esta categoria (por mais comentários laudatórios que visse) e, por isso mesmo, quando soube do feito, soltei um "ahhhhhhhhhhhh!!!", longo e prolongado. Depois percebi que era menos um filme que tinha para ver e, também por isso, fiquei muito satisfeito. Get Out, ou Foge em português - ainda que eu continue a achar que deveria ser traduzido para Foge Como Se Não Houvesse Amanhã - conta a estranha e sinistra história de um casal de namorados interracial (sim, meu Deus, esta expressão existe) que, naquela fase desconfortável de apresentar a cara metade aos pais, antecipa todo um cenário desconfortável, ainda mais (vai-se lá entender isto) dado o tom de pele dos pombinhos. Na verdade ela não antecipa coisa nenhuma e até faz questão de dizer que o pai voltaria a votar em Obama, se pudesse e, portanto, que a família dela é tudo menos preconceituosa e racista. 

Get Out é, espante-se, um híbrido improvável de filme de terror com comédia, suspense, mistério e outros géneros que tais. À partida poderá parecer pouco provável que resulte, mas a verdade é que não defrauda, não senhor! Assim de repente só consigo comparar mesmo com a série, também ela muito estranha (mas nem por isso má), Black Mirror. Se já viram, ficam já a saber que este filme seria facilmente um dos seus (poucos) episódios, até porque não há, na série, ligação alguma entre os episódios a não ser, lá está, a mistura entre o surreal e o genial. Ou então, de outra perspectiva: qualquer um dos episódios dessa série poderia estar nomeado para melhor filme, bastava acrescentar mais meia hora e a coisa dava-se. A escolha é vossa. Entretanto eu gostei muito porque me revi no filme. Sim, é verdade. Eu de resto revejo-me em todos, é o que vale. É porque também eu tenho uma empregada sinistra, que aparece de rompante quando uma pessoa menos espera. Aliás, eu chego ao ponto de tentar fugir de casa assim que posso, o que nem sempre é fácil. É que ao menos a empregada absolutamente siderada do filme ainda serve chá, a minha nem isso. 

Foge acaba por desconstruir um bocadinho os típicos e tradicionais filmes de terror e surpreende, sobretudo, pelo plot twist que parece estar sempre ali, ao virar da esquina. É Sobretudo peculiar e diferenciador quando nos confronta frente a frente com algumas questões não retratadas em filmes do género, um bocadinho embebido em crítica social face a questões raciais fraturantes (que os americanos tanto gostam), onde fervilha uma tensão estranha durante grande parte da trama. Um bocadinho a fazer lembrar aquela tão suigeneris expressão que geralmente começa assim: "eu não sou racista, mas..." Andamos ali às apalpadelas durante o filme todo, em várias cenas, sem perceber grande coisa, quando na verdade nos são dadas uma miríade de pistas. Acho que ninguém, ao longo da trama, conseguiria antecipar minimamente o que iria sair dali. Mas é que nem a Miss Marple farejaria tal cenário perturbador. Admito que, mais uma vez, o Hernâni Carvalho resolveria a situação em menos de 5 minutos, mas isso só porque ele é absolutamente incrível. 

Há uma cena tremendamente aterradora. Uma ou duas. Três, vá. Obviamente não vou dizer quais são, mas eu fiquei absolutamente em estado de choque, sem perceber minimamente no que é que aquilo ia dar e só me apetecia gritar "AI FOGE, AI FOOOOGEEEE POR AMOR DE DEUS, QUE TU FICAS AÍ ESTENDIDO E NUNCA MAIS NINGUÉM TE ENCONTRA"... Acho que não fui minimamente Spoiler. E pronto, muito mérito para o ator Daniel Kaluuya que é notável, sobretudo no segundo episódio da série Black Mirror, na  qual eu descobri que ele entrava já muito tempo depois de ter visto este filme. E também para a atriz Allison Williams, a Rose no filme, que é uma jóia de moça! Não fosse ela e o rapaz esticava o pernil ali, naquele casebre assustador. Entretanto quem tem de fugir o quanto antes, sou eu, que me faltam 4 filmes dos Óscares para ver e a cerimónia é já no domingo! Raios parta mais ao mês de fevereiro e aos 28 dias.  


21.2.18

Underwater Love





































Numa altura em que o cinema se afunda, tantas vezes, em clichés, (e cada vez mais politizados e cheios de ideologias, o que à partida poderia ser interessante, mas que acaba por ser demasiado pretensioso em certos casos) The Shape of Water (A Forma da Água), parece-me, assim de repente, uma verdadeira lufada de ar fresco (mas será que é mesmo?). Muito porque Del Toro nos dá, em pouco mais de duas horas, algo que por vezes faz falta: o silêncio. Ainda que pelo meio, claro fica, nos vá atirando algumas verdades incontestáveis; uma delas, assim logo para abrir a pestana, talvez a mais evidente, a de que "Life is just the shipwreck of our plans", que é mais ou menos o mesmo que dizer que a vida é simplesmente o afundar dos nossos planos. Ou seja, que a vida é uma grande merda. Ora, Guillermo del Toro obriga-nos a engolir em seco um punhado de vezes ao longo da trama que, não vamos lá com paninhos quentes, me fez logo relembrar na primeira cena, O Fabuloso Destino de Amélie. E o que é que isso tem de mal? Rigorosamente nada. Todos os filmes desta vida me fizessem lembrar a Amélie Poulain e eu seria uma pessoa muito mais feliz. Era sinal que não eram filmes chatos e que eram, de alguma forma, belos. 

Aquela ideia de que já não há nada de original, e que na verdade tudo é uma mesclagem de outras coisas, é uma realidade. Dizer, portanto, que este filme é único, assim para lá de original, é capaz de ser exagerado. E por isso este filme nos vá, muito provavelmente, fazer lembrar outros porque, sim, talvez ele seja o resultado de um admiração e da construção, enquanto realizador, de Del Toro ao longo da sua carreira. Acho que por esta altura já foi mesmo acusado de plágio (não sei se formalmente), a começar pela comparação com a peça Let Me Hear you Whisper de 1974, cujo filho do autor, David Zindel, evidência as semelhanças - incontestáveis, é verdade, comprovadas pela minha pessoa! E nisto já há uma série de outras tantas comparações a outras tantas coisas. Del Toro já se pronunciou em relação a isso. Não ficou caladinho que nem um monstro subaquático, não. Disse ao Los Angeles Times (e sim, EU estou a citar um artigo do OBSERVADOR, ACUSEM-ME DE PLÁGIO, VÁ LÁ VER) onde o realizador afirma ter-se inspirado no filme "Criatura da Lagoa Negra", que viu pela primeira vez ainda petiz. Mas vá, fazendo boa fé de Del Toro, o que salta à vista é a Sally Hawkins (o resto que se lixe), de quem já era fã pelo filme Blue Jasmine, do Woodie Allen, mas de quem me tornei mais fã ainda, depois deste papel soberbo onde é difícil não ficarmos embevecidos com a personagem. Que não é perfeita, que não é linearmente ingénua e delicada, como facilmente nos poderia passar, mas que é tudo isso, com um polvilhar de obstinação e força que nos é passado, lá está, através da comunicação não verbal. 

Só Deus sabe o quanto eu não suporto ficção mal amanhada, super heróis fabricados assim às três pancadas e mal adaptados para cinema. O quanto eu não aguento um mau efeito especial, daqueles fraquinhos, que demoram 10 anos a fazer, do género Avatar. Mas este tem qualquer coisa que o torna credível, real. O fantástico, enquanto género, pode ser tão perigoso e arriscado que Del Toro, os artistas que criaram a personagem marinha, e não menos o português por detrás dos guarda roupa (sim, o Luís Sequeira)  só podem receber os créditos merecidos por me terem feito acreditar, sim, A MIM, nesta personagem aquática, neste filme como um todo. Correndo o risco, elevado, de criar um filme demasiado nonsense, visualmente demasiado artificial, pouco credível, exagerado, etc e tal, há algo que consegue equilibrar tudo isto, talvez a parte humana das personagens. O que desafia a personagem de Elisa Esposito a salvar a criatura faz-nos esquecer que estamos perante uma história absolutamente rocambolesca. E depois, no fundo, no fundo, todos nós somos um bocadinho monstruosos, só não temos uma Elisa para nos salvar.



15.2.18

O Caleidoscópio Especial

Corri Lisboa à procura de um caleidoscópio. Sim aquele vidro (ou plástico) com vários fragmentos que espelha a mesma imagem uma série de vezes, e que por isso cria um efeito visual característico. Já toda a gente espreitou por um. Entre o entrar e sair de lojas, que mais ou menos poderiam eventualmente vender esse tipo de artefactos (útil à minha carreira de Mario Testino), pensava eu, fui-me habituando às mais diversas caras de espanto, numa alegre miríade de reações diferentes (e surpreendentes). Da estupefação ao levantar do sobrolho, o "não" seguia-se sempre, levando-me a questionar o porquê existência da chamada vida "inteligente" no planeta terra. E de superfícies comerciais. Essencialmente a questionar o porquê de existirem grandes espaços megalómanos onde na verdade não encontramos aquilo que mais precisamos.  Mesmo que seja um caleidoscópio. É que já toda a gente teve um, é daquelas coisas que não serve para grande coisa, mas lembro-me de em criança ter tido. Houve, no entanto uma loja de brinquedos de criança, no Vasco da Gama, cuja resposta à questão me fez entrar num estado de apneia profunda: "Tem caleidoscópios?", a resposta é notável: "Não... mas olhe, veja na Fnac! Eles às vezes tem umas coisas meio robóticas..." 


3.2.18

Cine-Concerto Harry Potter, hoje, em Lisboa


É hoje, é mesmo hoje! Esperei muito por este dia. Até porque não consegui ir à primeira edição, no ano passado, por isso, sim, foi uma longa espera. Lembro-me de ter ido ver o Harry Potter e a Câmara dos Segredos duas vezes ao cinema. Conseguir justificar à minha mãe que valia a pena ir, pela segunda vez, ver o mesmo filme, não foi fácil. Acho que tive de chorar. Uma vez não chegava. Tinha 12 anos e lembro-me de sair do cinema completamente siderado, eu próprio a achar que era um feiticeiro. De resto isto é algo que me acontece ainda hoje, sempre que estou a sair do cinema, e gostei do filme, estou sempre em modo personagem. É coisa para durar umas duas horas, ainda que com o Harry Potter isso tenha durado alguns meses. Pancadas. Saibam desde já que nem adianta se meterem à minha frente na fila, como filho do diplomata, tenho imunidade a várias coisas e, obviamente, tenho prioridade. Nem pensem em comprar uma briga comigo. Ainda há bilhetes, poucos, mas há. Eu quero aquilo cheio para ser mais emocionante. O concerto/filme começa às 20:30, na Altice Arena, e por favor não cheguem atrasados, não quero cabeças a passar à minha frente e gente perdida sem saber onde se sentar. De lembrar que o filme é projetado num ecrã com 20 metros em alta definição e que a banda sonora é, já se sabe, interpretada ao vivo por uma orquestra conduzida pelo maestro Mattias Manasi. Entretanto, feitas as contas, vou ver este filme, pela terceira vez ao cinema. Porque não, duas não bastavam.


31.1.18

Que raio vem a ser isto???




Matem-me devagarinho. Estava eu a trabalhar, há coisa de duas semanas, quando alguém me diz, do nada, que iria haver um filme de uma das séries mais emblemáticas de sempre. Fiquei capaz de ir fazer uma manifestação para a porta da Assembleia da República, discutir isto em plenário, levar o caso até ao Tribunal dos Direitos do Homem, em última instância. Eu não sei se estou preparado para isto. Agarrem-me, metam-me açúcar debaixo da língua, preparem um desfibrilador, façam o que quiserem, mas ajudem-me a enfrentar este cenário de horror. Ao que consta é falso, atenção, mas alguém me explique o porquê de existir todo este cenário perturbador? Se existe é porque foi equacionado, certo? Entretanto fui investigar mais e, ao que tudo indica, é uma mera montagem de vários filmes e séries em que os atores entraram. Não quero uma reunião de Friends, quero continuar a rever a série, só, de tempos a tempos. Entretanto já acabei novamente de ver as 10 temporadas e algo me diz que vou rever mais um punhado de vezes. Mas recuso-me a ir ver um filme, ficam desde já a saber. É que a montagem está tão má, mas tão má, que se dissessem que era verdadeiro, que ia mesmo estrear um filme, eu acreditava. Não se pode esperar melhor de um reboot.