1.6.16

O dia Mundial Dos Fedelhos

O my girl é um clássico. É aquele filme em que o personagem do Macaulay Culkin (SPOILER ALERT) morre com picadas de abelhas, estão a ver? O filme diz mais do que parece, garanto. Além do mais a interpretação da Anna Chlumsky é soberba. "I only surround myself with people I find intellectually stimulating". Decidi revê-lo, e olhem que já perdi a conta às vezes que o fiz. E porque hoje é dia da criança, resolvi ir ao baú rebuscar este texto sobre o meu melhor amiguinho de infância, não é lindo? Nada amaricado. Mas tem graça porque escrevi isto há provavelmente mais de 10 anos, saudosista, quase a cortar os pulsos com a faca da manteiga: "Lembrei-me dele, de como éramos do mesmo tamanho e de como éramos igualmente magros. Quase iguais mas eu moreno e ele loiro albino. Numa noite de verão a mãe dele veio a minha casa falar com a minha mãe, vai-se lá perceber o porquê. Ele também veio, mas eu não os conhecia e se bem me lembro fiquei envergonhado (momento raro); logo andava na cozinha a tentar captar a informação à socapa. Nessa noite cheguei a falar com ele, mas só consigo ter a certeza que ficámos inseparáveis durante uns bons anos. Entrámos para a mesma turma e partilhávamos a mesa ao fundo da sala. Éramos o terror das ruas. Arrumávamos com o Denis the Menace em três tempos, e os nossos vizinhos temiam qualquer aproximação. Uma bela noite, aborrecidos, pensámos: e se nos despíssemos e fossemos mostrar a pila para a porta do prédio assim na loucura? E pronto, fomos vistos por uma mãe de uma colega da escola, foi lindo. E da vez que o raio do hamster me mordeu o dedo? E então da vez que vi o irmão dele, muito mais velho, nu na casa de banho? Ou da vez que enchemos a varanda da vizinha cheias de folhas de papel amachucadas... Lembro-me dos sofás dele. Do quarto. Da irmã, da mãe e do pai. Do gato que caía tantas vezes do quarto andar mas que acabou por morrer engasgado com asas de sacos de plástico. Lembro-me de o ver a chorar por isso. De andarmos à porrada. Das centenas de vezes que fomos de casa para a escola e da escola para casa. Dos caminhos cheios de lama em que nos sujávamos voluntariamente. Dos miúdos que escravizávamos. De brincar com a garagem de carros dele. Do robô, do telescópio e dos ursos com os quais simulávamos ter sexo, coisa que descobri porque o primo dele lhe explicou. Das descobertas, e das histórias que eu contava e ele acreditava. Dos jogos na consola. Das tentativas frustradas de ver programas com bola vermelha. Das invasões de privacidade. Das brigas e dos outros amigos que fizemos, mas que no final continuávamos a ser só nós dois. De quando ele e a família foram despejados pelo banco e eu fiquei a vê-lo ir embora da janela.


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