26.10.16

Carta Aberta ao Presidente da República.

Exmo. Senhor Presidente da República,

Escreve-lhe um jovem (esbelto e sensual, por sinal) uma hora depois de frequentar a sua própria casa de banho onde tentava pintar as paredes para mostrar que é auto-suficiente e altamente multifacetado. E fá-lo triste, porque não está a ser aquilo que sonhava e que desde sempre sonhou para um local onde passa grande parte da sua vida a fazer várias coisas, as quais opto por não especificar mas que, de fonte segura, "cheiram a uma doninha morta". Há mais de 20 anos que me arrastava num espaço com azulejos azuis às flores pretas e com louças do tempo dos Czars, e já sonhava e ansiava pelo dia em que poderia começar a remodelar esta área da casa. Mas aqui estou eu, apesar de ter iniciado as remodelações com altas expectativas, isto ficou uma merda. E não estou feliz porque me recuso a conformar, a suportar a frustração de ter uma parede de uma cor pela qual não sinto paixão, escolhendo que fique como está só por dizer (a mim mesmo, 4ever alone) que se lixe esta merda. Por isso vou tentar é mudar de casa. 

Se para muitos a casa de banho é só um lugar de passagem antes de sair, para garantir que não temos espuma branca nos cantos da boca (ou pior, mau hálito), e que não cheiramos mal, para mim não; a casa de banho toda modernaça com uma sanita cujo tampo desce sozinho, foi o que desejei para a minha vida. Para poder desfrutar dos meus longos banhos, dançar nu em frente ao espelho, cantar para garantir que todos os meus vizinhos têm acesso aos melhores covers musicais é o que vou fazer, seja na minha casa de banho seja em Paris, onde levei com um esguicho de água vindo de um chuveiro descontrolado e possuído por um espírito Vitoriano. Porque eu quero, porque eu mereço, porque eu preciso. Fá-lo-ei porque sinto que este é o propósito da minha vida, e de forma alguma merece ser desvalorizado ou esquecido - que comprei uma tinta que, na embalagem é cinzento e, depois, vai-se a ver e é lilás! 

Ser daltónico (vá, só confundo algumas cores mais complicadas, com tonalidades que não lembra a ninguém, tipo a cor do corante do charope Maxilase que se lê no rótulo: amarelo sunset) é ser-se incompreendido, mal amado. Requer coragem (a escolher a roupa de manhã) desembaraço e vontade de não parecer a Vicky Pollard quando se chega ao trabalho. Como é que se avalia isto tudo quando se está a escolher uma tinta sob pressão no AKI... "caraças, levo este rosa-choque-saia-menina-borda-da-estrada, ou este verde-alface-ressequida? Quem é que avalia o lado humano?

Mas eu sou forte e não vou desistir. Esta é apenas a primeira adversidade da minha jornada na "vida dos crescidos" que metem a mão na massa a arranjar a sanita entupida, de quem muda a lâmpada do candeeiro sozinho, de quem dá com comida podre nos frigorífico do natal de 2012, de quem tem que suportar que a empregada doméstica não lave outra coisa a não ser o chão (e mal lavado ) com a esfregona. O que me aperta o coração é saber que tenho de ser eu a comprar um pano do pó e, neste caso, a escolher a cor para pintar as paredes. Estar indeciso entre azul menta e "névoa" (a dita tinta que na embalagem é cinza e que na puta da parede fica roxo. O que me dói é ver o meu pai, que nunca fez nada por esta casa, a não ter de se chatear nem um bocadinho com a problemática, o que me leva a questionar a justeza. A justeza de ter de ser eu a fazer tudo. O que me assusta é lembrar-me dos meus irmãos imaginários quando tinha dez anos. "Francisco desliga a luz da casa de banho", gritava eu sozinho em casa. Custa-me saber que ele nunca vai ver a casa de banho com uma cor elegante e sóbria! E agora, tenho de ir até onde para me devolverem o dinheiro depois da reclamação que vou fazer?? É que vou fazer um escândalo e, ou me deixam trazer outra tinta, ou mando a tinta lilás para cima daquela gente toda. E quem é que me vai aturar nos próximos dias de mau humor? Aí é que fico assustado. 

Por muito difícil que seja, se o meu país não me concede a oportunidade de trocar uma lata de tinta que me custou 23 euros (no total foram 40, com dois primários que me impingiram e, afinal, não era preciso) vou ter de deixar de fazer bricolage. Vou ter de agarrar em mim, cheio de sonhos e ideias e dedicação, e alapar no sofá as minhas folgas inteiras a ver o FOX Comedy, e dormir. Atrás do meu sonho. 

Eu perco, a minha família também, que não será nada fácil entrar naquele espaço e sentir tonturas quando se está aflito para mudar a água às azeitonas. Mas Portugal também perde. E é por isso que lhe escrevo. Em nome de todos nós que nos enganamos (ou nos enganam) com as cores das tintas. Dos que queriam um cinza Manhattan e lhes saí um roxo-pessoas-falecidas. Podia ter a melhor casa de banho do mundo. Porque há que mudar! Há que quebrar o ciclo vicioso de não fazer nada em casa. Há falta de casebres com bom gosto e não nos trocam as tintas depois de abertas... E Portugal permite isto, deixa que esta máfia das tintas subsista. Gasta-se dinheiro em tanta coisa, será assim tão impensável darem umas amostras? Eu sei que pintar a casa sai caro. Mas sairá muito mais se eu tiver de chamar cá o senhor Fernando, um homem que tem uma casa no Algarve na qual passa férias a beber pina-coladas enquanto lê a revista Gina, e que não passa cá faturas a ninguém. Isto porque o meu país não me permite errar nas tonalidades. Isto porque o meu país não me ensinou bricolage na escola! E agora quero pintar o teto de branco e a tinta também não vale nada. 

Quero um dia poder dizer aos meus filhos como pintar as suas próprias paredes que, para além de lindas, tenham cores que não provoquem tonturas. Portugal é justo! Merece que lhe dediquemos os nossos sonhos e que todos juntos lutemos para que seja um país com casas de banho dignas! Quero um dia poder perguntar a um dos meus filhos o que quer ser quando for grande e ouvir, PAU PARA TODA A OBRA, sem um aperto no coração. Não quero que tenha de pintar as paredes côr de amarelo sunset ou verde-espargo porque a loja não trocou a merda da lata já aberta.



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