3.11.16

Donald Trump.


Casa Branca na Mira do Magnata. O que têm a dizer os americanos que escolheram Portugal para viver. (Às vezes escrevo coisas sérias, texto de junho de 2016. Ainda que datado, vem a propósito da vantagem de Hillary sobre Trump ter voltado a desaparecer)

Pelo menos 35 pessoas acabaram detidas depois dos recentes confrontos entre manifestantes, no rescaldo do comício de Donald Trump, em San Diego, na Califórnia. Na mercearia Liberty American Store, em Lisboa, o assunto é discutido entre Jelly beans e caixas de Pretzels. A questão impõe-se: pode Trump ser o sucessor de Barack Obama?

"Bernie Sanders teria de correr contra Trump para assegurar que ele perderia, a meu ver". O argumento provoca um aceno de cabeça afirmativo ao seu redor, quando em cima da mesa está em causa, dizem, a fraca popularidade de Hillary Clinton e a divisão no partido democrata, "ela não é assim tão querida, ao contrário do que os meios de comunicação parecem querer mostrar!". Mas ninguém está disposto a elogiar ou defender Trump e há, ao que parece, uma possível explicação para essa unanimidade: "Ele encontra apoio em pessoas com baixa escolarização, brancos que se sentem ameaçados e sem o poder de outros tempos", explica um jovem luso-americano, Lance, de 28 anos, formado em psicologia paramédica. 

Lance Augusto mostra-se convicto: "Não me consigo imaginar a voltar tão cedo, muito menos sabendo que Donald Trump tem hoje a possibilidade de ser Presidente", afirma. Nasceu e cresceu em Los Angeles e, apesar de ter estudado na área da saúde, trabalhou durante 10 anos em políticas públicas, em Fresno, em São Francisco. Filho de mãe algarvia e pai açoriano, que ainda vivem no Oeste dos Estados Unidos, está em Lisboa há um ano e confessa que já se apaixonou pela cidade, "mas a incerteza que se vive nos Estados Unidos faz-me pensar no futuro, no meu e no da minha família", desabafa. 

Depois da desistência dos oponentes John Kasich  Ted Cruz, e agora com delegados suficientes para ser oficialmente um candidato do Partido Republicano, Donald Trump soma e segue na corrida à presidênca dos Estados Unidos, fazendo-se acompanhar dos comentários racistas e xenófobos, como é já seu apanágio. "Honestamente não sei se ele pode vencer, por isto: ele irritou tantos grupos de minorias que todos juntos deviam ser o suficiente para o afundar", afirma Jorge Edwards que antevê, em jeito de esperança, um possível efeito de retaliação forte às palavras do "short fingered vulgarian" (vulgo Donald Trump) durante a campanha.

Deste lado do oceano atlântico muitos são so que acompanham a política americana, mas são sobretudo os cercas de 20.000 norte-americanos a residir em Portugal que têm a memória bem viva. Se a ameaça crescente de terrorismo paira agora sobre o discurso do candidato republicano, George relembra que a preocupação não é de agora. Em 2011 a inquietação com a escalada de terrorismo islâmico interno levaram um congressista americano a preparar uma audiência sobre o assunto (que originou manifestações da comunidade muçulmana) e, também por essa altura, Barack Obama, a um ano de terminar o seu primeiro mandato, visitava uma mesquita em Sterling, na Virgínia, onde garantia: "não estigmatizaremos comunidades inteiras devido às ações de alguns".

Luís Marreiros fala na possibilidade de encontrar, ao longo da história, vários candidatos cujas visões se assemelham em muito às de Donald Trump, mas de uma coisa parece estar seguro: "Os Estados Unidos nunca estiveram tão perto de eleger alguém tão radical". Aos 45 anos recorda que regressou a Portugal em busca de uma vida melhor e assegura que Lisboa é um dos melhores lugares para se viver: "Os americanos olham para aquele lugar como terra das oportunidades, mesmo que sejam sem-abrigo" conta, depois de viver 26 anos perto da fervilhante ilha de Manhattan. "Preocupa-me que ele seja uma figura associada a um programa de sucesso na televisão, onde preconiza alguém que está em controlo de tudo, como estando sempre certo", acrescenta.

"Quando Trump se refere a mexicanos, essa palavra na América é usada para todos os imigrantes, de todas as raças. Muitos americanos e imigrantes já estabelecidos, incluindo portugueses, odeiam os recém-chegados", explica Luís, ao recordar-se das primeiras declarações feitas sobre a comunidade hispânica, onde "The Donald" os descreve como sendo traficantes e violadores, assegurando que uma das primeiras medidas seria a construção de um muro com mais de 3 mil quilómetros na fronteira com o México. "Estamos a falar de uma velha ideologia, a de querer fechar a América ao exterior, e isso não é novo", acrescenta. 

Dos confrontos entre apoiantes e opositores, dos quais resultam 35 pessoas detidas, Holly Blades vê uma atuação policial rápida e forte. "O número [de detidos] não é assim tão elevado, para dizer a verdade", afirma. Lance apressa-se a rematar e desvaloriza a situação: "Ninguém foi baleado, e desde que ninguém morra serão todos esquecidos, como sempre". O incidente ocorreu poucas semanas depois de confrontos num comício em Albuquerque, no Novo México, ainda durante as primárias de Washington. 

"Eu venho de uma zona rural onde ele é muito popular, exactamente porque gostam da forma como ele fala; sentem que fala diretamente para eles, infelizmente". Declara Holly, atualmente a viver em Sintra. Recorda que veio de férias para Portugal e que foi nessa altura que conheceu o seu marido, um português com ascendência inglesa. "São sobretudo pessoas com poucos recursos económicos, que sentem que a segurança e o poder que outrora tiveram desapareceu", reforça. Holly vê ainda em Trump a figura de abusador, a de "bully", de quem as pessoas preferem estar ao lado dele, a serem o seu alvo. 

Quando o assunto é a universalidade que sustenta os sistemas de saúde europeus, a controvérsia em terras de tio Sam é profunda. Num país que valoriza a iniciativa individual, o programa de saúde ObamaCare permitiu que, pela primeira vez, milhões de americanos passassem a ter um seguro de saúde, que supôs um maior envolvimento do Estado. Donald Trump já reiterou a incompatibilidade com o programa e há quem por cá até diga: "Algumas ideias não são assim tão descabidas. O Obamacare é falível. E as listas de espera? As pessoas evitam ir ao médico a menos que seja uma urgência", refere Debra, editor de livros reformada a viver no país. Holly considera, por outro lado, que foi um progresso: "Uma reforma na saúde era necessária, a situação era perigosa. Ainda assim [o programa] não foi longe o suficiente", afirma. "Os Estados Unidos têm um dos melhores serviços de saúde do mundo... se tu puderes pagar por eles. Retirar o Obamacare colocaria novamente as pessoas em maus lençóis", refere, contando que atualmente a mãe, com cancro, levará a que a família lute contra a companhia de seguros. "É frequente as famílias entrarem em bancarrota por assuntos ligados à saúde, e isso não é justo", conta.

Hillary Clinton oferece status quo mas isso, mas isso, concordam, não inspira as pessoas a votar. Os democratas gostam de Obama, mas estão desapontados por não ter criado uma grande transformação como fazia parecer possível. "Ainda assim foram alcançados progressos significativos, considerados os tumultos económicos do período de governação", relembra Holly. "A política vai muito além da ideologia. Há os lobbies e os amigos, as famílias com dinheiro e negócios de grande porte, diz, ao lembrar que quem chega ao poder se esquece da "malta" miúda. "Obama tentou ir por outro caminho", garante. 

Notam agora uma Europa nervosa com o possível cenário de uma vitória republicana. E, dizem, não seria uma conquista qualquer. "Os Estados Unidos perderiam todo o respeito e credibilidade para a Europa!", teme Holly face à possibilidade da escolha dos americanos recair sob o magnata. "Se é que ainda sobre algum respeito pela América, pois estes não têm sido tempos fáceis", relembra. Debra considera que é dificil prever o possível impacto na economia europeia, e da estabilidade política global, mas parece convicta quando teme conflitos diplomáticos no cenário e, pessimista, ou talvez realista, receia alianças fascistas. "Se no início parecia impossível alguém como Trump chegar a Presidente, é cada vez mais uma sobre real, ainda que ele seja megalómano e ignorante", conclui.  

Em cima da mesa podem estar sintomas de um declínio na democracia, não só nos Estados Unidos, como também na Europa. Quem o afirma é Ray Hutchison, professor da Universidade do Wisconsin. Em Portugal a propósito de uma conferência sobre a política Norte-Americana, na Universidade Nova de Lisboa. Ray faz notar uma transformação na classe média americana, "Parece que nos Estados Unidos somos todos de classe média, não há políticas para a classe trabalhadora, mas até isto vai mudar", diz Ray, relembrando ainda que cerca de 1 milhão de pessoas chega todos os anos aos Estados Unidos, de forma legal, e que as minorias representam 33% da população no país. Mas é nas considerações sobre o que parece ser a perda de força da democracia, que Hutchison conclui que talvez Donald Trump não seja a causa desse trajeto, mas um efeito disso mesmo.





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