4.11.16

Parece Impossível

Mudaram-me a morada de casa. Mudaram, sem pedir, sem perguntar se eu achava bem. Mudaram porque provavelmente não tinham grande coisa para fazer, é legitimo. A rua é grande e entretanto há cartas lá em casa que deviam estar no fim da rua. Cartas que mais dia menos dia vão para o lixo, pois os meses passam e elas, malogradas, continuam sozinhas e abandonadas. Há prioridades incríveis neste país. Entretanto, como tenho a morada antiga no Cartão da Cidadona, diz que tenho de mudar o registo. E o mesmo serve para a carta de condução porque se não o fizer, consta, apanho uma adorável "multa que pode chegar aos 100€". Mas entretanto tenho de ir à Junta de freguesia pedir um documento, e depois ir à loja do cidadão, e depois ir a Coina de Cima recolher 10.000 assinaturas, dar 30 voltas ao ego da presidente da câmara e fazer o pino enquanto canto Maria Leal. Mais, é preciso ter um papel com uns códigos ultra secretos que supostamente constam numa carta que serviu (dizem eles) para fazer o levantamento do Cartão do Cidadão (ou, lá está, da cidadona, que eu não sou gajo para descriminar). Acontece que o meu cartão foi feito em 2012, ano em que a sonda Kepler descobriu 26 planetas fora do sistema solar, em que a Etta James nos deixou, em que eu me vomitei do 5º andar em Istambul de uma piela que pareciam duas; acham por isso que eu não tenho mais que me preocupar, não?? Ora, é mesmo suposto eu saber onde enfiei a merda do papel, acham mesmo que eu sou assim tão dotado de memória? Pois claro que não. Se eu guardasse tudo o que é papel, e carta, e recibo e folha de papel higiénico, tinha de ser tirado de casa só depois de esburacada com uma retro-escavadora. 

Seguiu-se uma excursão à loja do cidadão com a senhora a soprar por todos os orifícios (não literalmente, espero) somente por ter de estar a explicar o que eu tinha de fazer (como se não fosse para isso que lhe pagassem ao final do mês), como se eu tivesse acordado uma bela e airosa manhã e me tivesse lembrado que estava insatisfeito com o número da minha porta. Como se eu, desgostoso, tivesse feito um choradinho para me mudarem a merda da morada. "Por favor, eu faço tudooo, literalmente tudo, para que vós mudem o nome da minha Rua. Faço tudo, dou o corpo ao manifesto se tal vos aprouver".

Deixem-me em paz. Deixem a minha morada, esqueçam que eu existo, ou é preciso fazer como o Christopher McCandless? Vejam lá, que ainda acabo na serra de Aire e Candeeiros escondido numa gruta. Faço a doação de todo o meu dinheiro (uma fortuna) a instituições de caridade, e depois nunca mais ninguém me vê! Parto sem nada, só com as roupas que tenho no corpo e deixo esta sociedade consumista e cheia de imposições absolutamente estapafúrdias. Passo a apanhar bagas, a caçar animais e a viver do que a terra dá. Com sorte também encontro um autocarro da carris que será a minha casa, onde acabo morto passado uns tempos, mas livre desta escumalha toda. 

Voltei a casa e, claro, passei a minha folga à procura da merda do papel, tudo para evitar ter de ir perder 10 anos na fila da loja do cidadão, tudo para não ter de pernoitar à porta da loja porque às 7 da manhã já não há senhas para ninguém, tudo para não ter de ver, enquanto espero na fila, uma funcionária a ver sites de roupa enquanto eu espero longas horas. Irritado no meio da procura incessante, completamente fora de mim, mandei várias coisas ao ar, nomeadamente caixas cheias de papelada e objetos vários. Tanta árvore assassinada nesta vida. Chego a um ponto de fúria que, não raras vezes, dou comigo a mandar literalmente tudo o que me aparece à frente contra a parede. Cada vez mais me convenço que não fui feito para viver em sociedade. Prendam-me numa jaula. 

Posto isto, depois de horas a deitar porcarias para o lixo, de sacos cheios de tretas que daqui a 10 anos vão ser precisas, porque algum iluminado se lembra que é de alta urgência, para eu poder ter acesso ao triângulo das bermudas, dei comigo completamente vencido, numa luta inglória num mundo dominado pela burocracia. Aliás, se algum dia ouvirem uma notícia que alguém se passou dos cornos e aniquilou a tiro o pessoal no departamento das finanças (ou de outro sítio qualquer), saibam de antemão que provavelmente fui eu, ou o Pedro Dias. 

Hoje de manhã, com tudo arrumado, tudo já organizado e no lugar, mais calmo, sem o porcaria do papel necessário, que vai dar um ar de sua graça em 2050 (quando já não for necessário) e, enquanto me preparava para sair de casa... que papel é que eu encontro no chão, do nada??????? Só uma nota: No ano novo é tradição abrir aqueles fortune cookies com mensagens lá dentro... então rezava o seguinte no pequeno papel: "Stay calm, even if you don't agree". O universo a dizer-me para eu me manter calmo, antes que o Karma me atinja forte e feio. Vou andar mais calmo que um monge do Tibete.


1 comentário:

  1. e é por isso que eu tenho capas com todas as documentações precisas e algumas não precisas :P tudo direitinho no mesmo sítio. evita muito estas chatices

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