14.12.16

O Renato Seabra era meu amigo no hi5

Isto tem tanto de surreal, como tem de verdade. Corria o ano de 2004, um verão escaldante, altura em que o hi5 representava o máximo da sofisticação e da promiscuidade juvenil e acneica. O hi5 é a prova viva que até as páginas de Internet morrem e algumas delas têm mortes lentas e dolorosas, foi o caso desta rede social, pois foi.Também foi o caso do Carlos Castro, mas isso já la vamos... uma coisa de cada vez. O hi5 representa assim, para alguns de nós, uma primeira incursão pelo mundo das redes sociais, dos pedidos de amizade, dos amigos virtuais, comentários a fotos de pôr a Erica Fontes ruborizada, e ajoelhada... a rezar pela nossa salvação.

O hi5 traz-me recordações embaraçosas, sobretudo pelas fotos que uma pessoa não se coíbia de la meter. As minhas não seriam das piores, ainda que estivessem bem longe de serem sóbrias e elegantes, mas, já dizia o Chet Baker, "Blame it on my Youth". Nunca tive nenhuma selfie, por exemplo, (sim, já nessa altura existiam selfies, não se iludam) o que mostra algum bom senso (mentira, tive uma foto em que meti temporizador e a seguir fui a correr para ficar numa pose sensual enquanto me fingia de distraído, acho que isso conta). AGORAAA, algo que realmente eu me lembro desta altura da minha vida, é que era amigo do Renato Seabra. Sim, o Renato Seabra que neste momento se encontra a cumprir pena de prisão nos Estados Unidos por homicídio!!!! E isto a propósito de quê? De rigorosamente nada. Mas querem algo mais escandaloso, que eu ser amigo de tal personalidade nas redes sociais desta vida? Não imaginam a minha cara quando ouvi, anos mais tarde, a famigerada notícia. Acordar e ficar a saber que ele, Renato Seabra (já mencionei que era meu amigo no hi5??) seria, muito provavelmente, o alegado homicida num crime passional com um homem que tinha idade para ser seu avô. E depois a embrulhada que aquilo foi!!! Não foi um homicídio qualquer, não! Houve salada de tomate à mistura. Parecia um caso de ser Poirot a investigar, ou a Miss Marple que aposto que está mais que aposentada e lhe faltava animação. Achei que estava num filme do David Lynch em boa verdade, tamanho era o grau de confusão que para ali andava. 

Ainda que isto pareça tudo, ainda, um bocadinho surreal, não deixa de fazer alguma confusão quando imaginamos que alguém, que por acaso até tem mais ou menos a "nossa" idade, "ainda" só esteja há coisa de 5 anos preso e que, se tudo correr bem, só lá vai ficar mais 20. E agora falando um bocadinho a sério, não consigo imaginar o que será acordar e ver que se continua ali, preso. Provavelmente sonhar durante a noite que se está num outro lugar qualquer, bem longe dali. O turbilhão de estados de espírito, e pensar na longevidade com que se vão ter de deparar; ora mais esperançoso, ora de rastos a perguntar se vale a pena continuar metido naquela embrulhada com a qual a nossa ambição não lograva um dia alcançar. A ambição não é condenável (está bem que neste caso foi), pois é da própria condição humana, é disso que somos feitos. Há algo que urge em progredir, em evoluir, que assume diversas formas. Há algo de muito inato que nos move, não se sabe bem de onde vem (instinto de sobrevivência?), mas que nos pode levar até Marte ou até a uma prisão de alta segurança. Matar só é crime porque se convencionou que assim fosse. Nem sempre a história se fez de condenações, tal como nem sempre a guerra teve a conotação que tem hoje, até porque era tão natural como beber água, tal como matar. Por isso às vezes tento analisar as situações como se estivesse nos sapatos do outro, por isso às vezes me lembro destas coisas, destes acasos, e tendo a racionalizar as situações. E, vistas bem as coisas, quem de nós não está preso a alguma coisa, a alguém; presos ao passado, ao futuro; presos a uma política económica, à ideia de liberdade; presos numa bola no espaço; presos dos intestinos... Cenários como o que aconteceu com o Renato não são assim tão pouco frequentes quanto isso, nem será o último caso destes... acontece que foi com um português, acontece que foi com um tipo que, ia-se lá imaginar... até era meu amigo no hi5.

(escrevi isto às 4 da manhã, com vontade de matar pessoas, mas na prisão não deve haver pizza, posto isto é melhor não)


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