22.12.16

Quando a empregada se mete em posição Missionária

Eu sei que é natal e que neste momento anda tudo enfiado em superfícies comerciais e lojas com filas até ao parque de estacionamento. Eu sei que neste momento as pessoas estão mais preocupadas em saber ao certo o que dar às tia em 35º grau, mas há coisas a acontecer além do Natal e eu que o diga... Então reza o seguinte: a dona Julinha, a empregada cá de casa, diz que se despediu. Enquanto disse isso, estava a limpar a casa e, posto isto, há três análises conceptuais possíveis a considerar nesta trama: a) despediu-se mas tem algum contrato, razão que a leva a estar a trabalhar contrariada, e prestes a cometer o suicídio; b) está à espera que façamos um choradinho para que ela fique, e que lhe peçamos desculpas de joelhos enquanto ela está de esfregona na mão, encostada à parede para descansar as (poucas) fadigas, ou c) o Senhorio já lhe pagou e agora vai ter de trabalhar o resto do mês que até se lixa. Posto isto tem muito que arfar pela casa enquanto vai proferindo umas quantas lamurias agarrada ao aspirador.

Entretanto a razão pela qual se vai embora, não é, ao contrário do que tudo poderia indicar, tê-la visto sentada na sanita de porta aberta a fazer a bela da necessidade fisiológica. Já falei sobre isto. Mas que culpa tive eu se ela não tenha fechado a porta? Acho que no fundo fui só uma vitima no meio disto. Esperei que ela se despedisse depois desse episódio, mas tal não aconteceu e, como já se passaram uns meses, desde o infortúnio, faz-me presumir que as questões são outras. Lá está, outra das coisas que geralmente a fazem passar-se da broa, poderá ser, e na verdade ela não faz grande questão de esconder a sua insatisfação, é quando tem assim vários sacos do lixo para levar para baixo. Uns 5, no máximo, vá. Como vivemos num 4º andar sem elevador, a coisa pode tornar-se extenuaste, pode sim senhor. Mas a verdade é que também, vamos lá ser honestos, isto não acontece toda a santa semana. Acontece assim... muito raramente, até! E depois, nós, que somos uns fofinhos, até ajudamos. Olha eu, que no outro dia peguei no saco à porta e o levei para baixo! Pois, também não somos assim tão desnaturados e insensíveis. A primeira vez que houve lixo desmesurado para levar, algures em março, a furia foi tal que eu próprio ouvi-a gritar pelo telefone. Não se coíbia de dizer palavrões. Lembro-me desta: "Até couve lombarda anda aqui, caralho!!!" Um doce de pessoa. Somos 7 pessoas a viver na mesma casa. Queria o quê? Queria ter diamantes e pérolas para levar para o lixo?

O episódio especial da última semana envolve reclamação por mensagem do senhorio para todos. "Boa noite a senhora da limpesa acabou de enviar uma foto com o lixo, aproveitou e ficou demissionária não está disponível para subir e descer 4 vezes para despejar o vosso lixo, realmente é inaceitável, vou marcar uma reunião com todos início do ano para encontrar uma forma de resolução até lá agradeço que cada um leve o seu lixo para o latão". Sim, ele escreveu exatamente assim, incluindo a "limpesa" e o "demissionária". Vou ser sincero, nunca na vida tinha ouvido a expressão demissionária e pelos vistos não era o único lá em casa... Alguns pensaram que ela tinha escorregado a fazer limpeza e tinha ficado, imagine-se, em posição de missionário. O que também não era assim tão surpreendente, já que ela lança uma quantidade de água para o chão capaz de a fazer cair numas quantas outras posições dignas do Kamasutra. 

Ora bem, mas vendo bem a situação, o que é que ela faz lá em casa? Não lava loiça, não lava o fogão, não limpa o pó... digam-me o que é que aquela aventesma anda lá a fazer?? Entre ter a Julinha e não ter nenhuma, eu prefiro tê-la, sim... Pelo menos tenho o chão do quarto limpo com a esfregona com que lava a casa de banho, o que já é um luxo. É nestas alturas que eu tenho saudades da Henriqueta, que ao menos era honesta e dizia mesmo que não ia limpar o chão, que limpava para a próxima... No entanto têm algo em comum: são as duas desdentadas, deve ser um requisito para se poder exercer a profissão. E não me venham com coisas, que é preconceito e que são exploradas e afins, porque ela recebe mais do que eu à hora! Além disso, se ouvissem os comentários da Carolina quando descobriu que a empregada lhe foi ao quarto tirar sacos para pôr o lixo, percebiam que eu, ainda que referenciando a falta de dentição, sou um amor de menino. "Gente de bairro vai ser sempre gente de bairro", vociferava ela indignada com o desaparecimento do saco do Él Corte Inglés.

Wishlist de natal atualizada: uma empregada que não se importe de despejar o lixo. Deve ser difícil nos dias que correm, mas não custa tentar.


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