2.1.17

Atentado em Istambul

Tinha saído de uma festa numa rua perto de Taksim, na Papa Roncalli Sk., onde tinha bebido de tudo o que me aparecera pela frente. Tinha ouvido a Sinnerman com a Nina Simone a cantar, e isso foi o suficiente para me trazer um saudosismo atroz. Lembrei-me de casa. Disse a uma rapariga italiana que ela parecia a Amy Winehouse e ela ficou ofendida, quase me batia. "Era um elogío, sua estúpida", pensei. Saimos todos e apanhámos um taxi. Fomos para a discoteca Reina, onde na madrugada de dia 1, morreram 39 pessoas. Tinhamos bebido o suficiente para estarmos felizes da vida e entrámos com alguma confusão à mistura. Se bem me recordo alguém não tinha documentação e não conseguiu entrar. Lembro-me disto porque me recordo de estar impaciente à espera de podermos todos ir espalhar o pânico e o caos por ali. Quando isso aconteceu, entrámos num espaço incrível com vista priviligiada para o Bósforo. Era um sítio caríssimo e eu, que já tinha ficado a dever dinheiro do taxi a uma francesa de olhos verdes, andei toda a noite a roubar bebidas dos balcões. Pedi a conta ao número de copos que bebi, e que não eram meus. Não apanhei herpes só porque não calhou. Acho que até cheguei a roubar bebidas para outras pessoas do grupo e aquilo já era mais por diversão que outra coisa. A técnica era sempre a mesma: sem grandes hesitações agarrava em copos cheios e fazia-me à minha vida. Nunca fui apanhado. Acabei enrolado com a tal francesa à qual já estava a dever dinheiro, ao ponto de termos sido chamados à atenção por um segurança. Não percebemos o que o gajo disse, mas terá sido algo como: "arranjem uma cama!!! E vá, parem de se comer aqui à grande e, literalmente, à francesa. És um garanhão, continua assim", mas isto tudo em turco. Continuámos noutro sitío. Continuei a roubar bebidas. As pessoas à minha volta estavam vestidas a rigor, fatos e vestidos cheios de brilhantes. Era verão e eu estava com uma t-shirt da DC já russa e, muito provavelmente, com umas calças de ganga rasgadas no joelho das quais me lembro particularmente. Meti conversa com uma tipa que parecia uma estrela de cinema porque, a rapariga francesa, que não revelarei o nome (Delphine Villert), me colocou o desafio. Estava já tão bebado que se fosse preciso tinha metido conversa com o Erdogan com o qual tinha ficado, por certo, BFF. Dessa noite recordo-me ainda de conhecer um americano, da minha idade, que meteu conversa comigo na casa de banho, onde me perguntou se eu tinha coca. Disse-lhe que não, e nem por isso deixámos de continuar a falar como se ele me tivesse perguntado se eu tinha papel-higiénico. Quando fomos embora fui a ouvir a música Yesterday dos Beatles, no taxi. Acabei por não dormir em casa e ficar na casa de um polaco, de um italiano e de um belga, num colchão, sozinho. Enquanto isso, ouvi até adormecer o Curzio e a Molina em amena cavaqueira. 

Não iria para Istambul nesta altura. Não iria para Istambul porque, numa altura conturbada como esta, podemos estar no sitío errado à hora errada, e o pior é que a cidade não tem culpa alguma no meio disto tudo. Aquele espaço estaria por certo lotado, com pessoas a dançar, a beber, e sabe-se lá a enfiar o quê pelo nariz. Outros andariam por lá a roubar bebidas. Alguns estariam aos amaços pelos cantos. O que quer que fosse que estivessem a fazer, não estariam a pensar em religião. No meio disto há sempre que perceber que estas questões arrastam consigo, invariavelmente, o medo. Não me imagino a passear, hoje, por Taksim, como andava há não muito tempo. Sou um bocado pussy, mas é legitimo. É dificil não nos passar pela cabeça que algo do género possa acontecer em Lisboa, mas foi impossível não ficar a pensar aquando deste último ataque: "foda-se, eu já estive ali!!!!". Eu estive naquele espaço, horas, a divertir-me tal como estavam aquelas 39 pessoas. Entretanto o atirador (a.k.a coninhas cagão), fugiu, e o Daesh já reivindicou o ataque e eu pergunto-me: Para quando reivindicarem depois de levarem no rabinho?? Pachorra para os Alás desta vida, ninguém quer saber desse gajo quando um tipo quer é passar a noite a roubar Dalmora 62 e Gin Bombay sapphyre.


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