15.1.17

Há filmes do caraças (ou não, estou confuso) #4







O ar condicionado estava ligado no cinema Monumental e, perante as paisagens invernosas da pequena cidade costeira de Manschester by the Sea, e, no inicio do filme, numa cidade de Boston não menos gélida, fez com que estivesse com aquela sensação de estar a observar tudo através de uma janela, numa sala confortável e quente, sem frieiras, mais ou menos como a cena em que o Lee Chandler está a olhar pelo vidro, mas do nada lhe resolve dar um murro. Tinha as expectativas incrivelmente altas. Fui ao Rotten Tomatoes, a minha fonte fidedigna de bons filmes, e aqueles 97% de frescura prometiam. Havia algures um comentário de que este seria "o melhor filme da década", o que me fez correr até ao Saldanha sem pensar duas vezes. A crítica enganou-me, ou criou-me exacerbadas expectativas.

Há uma letargia intencional no filme que não me cativou. A narrativa não é linear mas as referências temporais são decifráveis e percetíveis ainda que, por meio de diálogos mornos (sobretudo na primeira parte do filme), nos remete para mais um filme que não nos dá nada de novo em termos de técnica. Ora estamos no presente, ora estamos a revisitar, sem aviso, o passado do personagem para assim ficarmos a perceber as relações, o parentesco e ligação com os demais personagens. Nada de novo, portanto. A simplicidade do filme parece ter sido, porém, o que arrebatou a crítica. Falam de uma aparente subtileza na abordagem, o que na verdade está só a camuflar uma complexidade no tema. E lá isso é verdade. Falar da morte com a frieza necessária, com a incapacidade de chorar, porque às vezes não se consegue. 

Sem me armar em Spoiler, há três coisas/cenas que justificaram eu ter saído de casa num dia de inverno para me enfiar num cenário coberto de neve: a parte do congelador que, se virem o filme percebem, deu-me ali um murro no estômago que já não estava à espera. A parte da promiscuidade juvenil (que chega a ser adorável) do personagem Patrick (Lucas Hedges) que alivia a tensão e contrasta com a realidade dura que ele tem de enfrentar; e depois, porque não poderia deixar de ser, e porque lhe valeu a estatueta na categoria de melhor performance de um ator em drama, o acting do Casey Affleck, ainda que o Hedges não lhe fique nada atrás para dizer a verdade. Eu acho que, e fazendo agora a reflexão que ainda não tinha feito, senão para escrever isto, ir ver este filme é pagar para levar murros no estômago, mas que ficam a latejar, sem causar grande impacto. Mas murros daqueles que nos deixam sem palavras face à dureza de uma realidade da condição humana e na dúvida se gostamos, ou não, de nos lembrarem que a vida, às vezes, pode ser uma grande merda. 




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