10.1.17

Quando a empregada não se pôs, afinal, em posição missionária

Isto é do mais interessante que a vida tem para me oferecer. Vivo para contar os episódios especiais da dona Júlia que, como contei há uns tempos, se colocou em estado demissionário. Diz, portanto, que se demitiu. Na verdade não o fez; pois que de outra forma justificaria hoje ter ido lá a casa? Hãn? Quando entro na cozinha, pronto para me pisgar o mais depressa possível, assisto ao terror diante de mim. Assim que a vejo sou saudado com um semi-caloroso cumprimento. Não tão caloroso como noutros tempos idos. No entanto, os meus olhos são desviados para algo invulgar, estranho e sinistro, arrisco dizer. Estava uma vela acesa em cima do fogão. Entro em negação e dirijo-me apressadamente para o frigorífico. Abro a porta e fico a olhar para todos os tupperwares, enquanto a minha cabeça tenta racionalizar todo aquele cenário perturbador. Sobreviveria eu a este cenário com vida? Uma vela, acesa, às 11 da manhã num dia cheio de sol resplandecente?? Estaria eu a ser alvo de uma cilada macabra, numa seita de empregadas domésticas capazes de tudo?? O fim estaria próximo, pensei. Não escaparia daquela cozinha com vida, não haveria volta a dar. Seria a tragédia. Dariam comigo enfiado no armário dos produtos de limpeza em estado avançado de decomposição. Teria a dona Julinha lido o meu post?? Teria ela lido tudo o que disse sobre ela, nomeadamente a falta de dentição?? Seria ela, afinal, uma bruxa muito dada a rituais satânicos?

Decido enfrentar a situação como uma pessoa madura e, como tal, ignorei por completo o assunto, ainda que um bocadinho borrado. Sairia de cabeça erguida muito embora a existência de uma alta probabilidade de ser apunhalado pelas costas aquando dessa fatídica fuga. Foi então que fechei o frigorífico e dou com ela, especada, atrás de mim, com aquele cabelo loiro-água-oxigenada-palha-de-aço a ofuscar-me. Hesitei. "O que é que está aqui escrito?", diz ela, enquanto olha para um papel que está em frente da vela aterradora, já bastante carcomida pela chama. Foi nessa altura que me aproximei e li... "pray for the 11,5"... Foi o alívio, o fim de todo aquele cenário mórbido. Foi só (viria a saber mais tarde) o João que iria fazer exame e que precisava de ajuda divina e que esperava que orássemos o suficiente para poder passar à cadeira. Posto fim a este filme de terror, corri para o quarto, peguei em todos os meus pertences e quando dei por isso já ela estava a aspirar a casa de banho... ora pois claro... está tudo muito certo, o quarto lava-o com a esfregona, a casa de banho com o aspirador. Deve ter tirado o mestrado em limpezas na Católica, só pode.


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