27.4.17

13 Reasons Why



SPOILER ALERT.

A nova série da Netflix, 13 Reasons Why (ou Por Treze Razões), faz-me perceber que estou velho. Muito porque no meu tempo - e não, não foi assim há tanto tempo como isso - a palavra Bullying, que até já existia, não era por cá usada. Ir parar ao caixote do lixo, ou ser gozado porque se usava sapatos ortopédicos não tinha nome. O termo deve ter chegado 20 anos depois, como de resto acontece com tudo, menos com esta série que teve estreia mundial a 31 de março. 13 Reasons Why conta a estória de Hannah Baker, num típico High School Americano, que acaba por cometer suicídio a reboque de, vamos descortinando ao longo dos episódios, lhe serem endereçadas as mais diversas (sim, é um estendal que nunca mais acaba) formas de violência física e verbal. Está a ser de tal forma aclamada (as críticas falam por si), e o burburinho à volta desta é tão grande, que é difícil escapar por mais que, agora admita, alturas houve em que me perguntei porque raio estava a ver esta série.


Coisas que é preciso saber de antemão: que é através de Clay Jensen (Dylan Minnette), que recebe as 13 cassetes de Hannah, que vamos, aos poucos, percebendo ao certo (ou mais ou menos) as reais relações entre as personagens, assim como aquilo que as envolve nas causas que levaram ao desfecho trágico de Hannah (Katherine Langford). E por que razão é o Clay a receber as cassetes? R.: Não é só ele, não senhor, mas é através dele, do seu dia-a-dia, que vamos ter, de fundo, a voz de Hannah a contar-nos a verdade. A saber também que nem todos são o que parecem. Pois se no inicio Courtney nos surge amistosa e afável com Clay, rapidamente percebemos que ela é uma FALSA!! Às tantas já só me apetecia atirá-la para a frente de um daqueles típicos autocarros amarelos. Acontece com frequência, não é um caso isolado, já que todos eles pretendem esconder o porquê de estarem mencionados nas cassetes. Outra coisa: ainda que estando frente a frente com ficção, seria expectável que a série fosse articulada de forma mais entusiasmante. Eu sei que estamos a falar de suicídio, que é um tema delicado, mas é ficção, é uma série e não deixa de ser entretenimento, ainda que com uma mensagem forte associada, a trama poderia conseguir ser mais envolvente. 

O argumento é interessante (baseado num livro de Jay Asher), não peca nesse campo, já que explora uma temática forte, na maioria das vezes sem grande lugar para respostas a todas as questões que se levantam. Nestas circunstâncias ficam sempre coisas por dizer, coisas por explicar; Não é o caso da série, já que nos propõe não só uma razão, mas treze para o sucedido. Há por isso um fio condutor que nos força a querer seguir o rastilho para a explicação de algo que já aconteceu e para a qual queremos efusivamente entender (ainda que sejamos levados até lá em lume brando). A forma como o faz, ainda assim, não sendo a mais dinâmica nem a mais apelativa - não nos demove de passar uma hora a andar atrelado ao Clay na sua bicicleta, a tentar entender por que raio recebeu ele aquelas cassetes. Não nos demove muito porque já todos fomos bully ou vítimas de bullying. Porque em menos de 4 anos dois rapazes da minha idade se suicidaram, e porque coisas destas acontecem com mais frequência do que possamos imaginar. Isto é tudo muito bonito na ficção, mas se eu alguma vez recebesse cassetes de alguém que se tivesse suicidado seria rapidamente internado numa ala psiquiátrica. 

A banda sonora é um dos pontos mais agregadores da trama. Parece-me até intencional que existam referências mais, chamar-lhe-ei, 'datadas': a saber, o recurso a cassetes (não poderia ela gravar audio no whatsapp?), a música old school e até o Mustang de uma das personagens. Há lá musica dos Joy Division melhor para ajudar à depressão, que 'Love Will Tear Us Apart'? A trilha dos outros 12 episódios diz que há. Prova que os anos 80 estão aí, é que grande parte da banda sonora tem bandas desses tempos idos. Nem todas as musicas são propriamente para cortar os pulsos com a faca de serrilha, há delas mais alegres... poucas, mas há. Não é certamente a recorrente 'The Night We Met', de Lord Huron (2015); ou a 'Whatever You Want', dos Cold Shower.

'Perder um amigo é difícil, especialmente quando não percebemos a razão' - Há lá pelo meio umas frases que nos fazem pensar, é bem verdade. Ainda assim, chega a ser fácil nos esquecermos que a protagonista já não existe, que se suicidou, já que tantas vezes está presente. Foi realmente difícil sentir total afinidade com o desenrolar da narrativa. Se calhar sou só eu que me tornei numa rocha ultimamente. Não me consegui comover com as situações retratadas, mas depois vejo estas coisas: a única razão pela qual o Clay tem uma cicatriz na testa, consequência de um acidente de bicicleta, é essencialmente para demarcar o espaço temporal em que a ação decorre. Demasiado elementar da narrativa? Talvez. Deveria eu estar atento a estes pormenores? Não!

Agora que penso nisso, um dos meus filmes preferidos de sempre (sim, são muitos), é o Virgin Suicides (1999), da cineasta Sofia Coppola. Filme este que também retrata o tema do suicido, baseado no livro com o mesmo nome do autor Eugenides. Ainda que tendo a mesma temática o enquadramento é totalmente distinto. Muito mais envolto em dúvidas, misterioso e com uma estética bem mais apurada. Não há grande forma de fazer comparação, mas as causas da morte das irmãs Lisbon fica (e desta forma mais realista) envolto em duvidas, que as outras personagens, e nós, nunca conseguimos dissipar. Com uma banda sonora incrível (Air, Todd Rundgren e Carole King), As Virgens Suicidas é dos filmes que me vai assombrar para sempre. Não há cena mais estranhamente bela que aquela em que Trip Fontaine deixa a Lux sozinha no campo do estádio, depois da festa. Kathleen Turner, a mãe, faz um papelão notável. Já li o livro e volta e meia vou rever o filme. 

Entretanto voltando à série, esta foi claramente finalizada com intenções de a continuar. De que de outra forma se explica o emaranhado de coisas a acontecer sem grande explicação? Ainda que se fale na tentativa de suicídio de um dos personagens, que eu não vou dizer qual é... (é o Alex), e que surja uma cena na ambulância, nada fica provado que efetivamente foi a tal personagem (a tal que eu nunca direi o nome), como também não se percebe se foi realmente tentativa de suicídio ou se alguém o tentou matar. Vemos pelo menos duas personagens com armas no ultimo episódio. Existem outras cenas dúbias e que mostram haver pano para mangas, como a cena em que o personagem Tyler tem, perto dele, fotos de todos eles - que quase nos faz antever a possibilidade de assistir a um remake do massacre de Columbine. E depois o que é que acontece ao Bryce, ou à Sheri? E aos outros todos?? HMMMMMMMMM...



2 comentários:

  1. Eu por acaso acho que não foi o Alex. Para mim foi o Justin: porque se vires com muita atenção, na ambulância o rapaz não é loiro.
    Tinha muitas expectativas criadas para esta série, e quando acabei apeteceu-me atirar o computador pelos ares. Em vários momentos apeteceu-me esbofetear aquela gente toda, Hannah incluída.

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    1. pois, eu também... criei tantas expectativas que depois acho que defraudou um bocadinho! :/ Se voltava a ver a série outra vez? não. Acho que isto diz tudo.

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