7.5.17

Literatura da boa #1

Gosto de deambular por livrarias. Cruzo-me geralmente com exemplares notáveis, sintomáticos de uma era de extremo bom gosto e qualidade literária, como nunca antes. Mas depois fico com pena de alguns dos nossos melhores escritores já não andarem por cá... verem como isto anda. Fernando Pessoa, por exemplo, era menino para ter uma vasta biblioteca. Cerca de 1200 títulos, para ser mais preciso. Entre a lista de ilustres obras estavam autores como Camilo Pessanha (um louco dos piores), Florbela Espanca e outros de renome internacional incontestável: a saber, entre os demais, os devassos Walt Whitman e Oscar Wilde. Keats e Yeats. Foi então que, quando numa dessas minhas incursões pelas livrarias, me deparo com esta obra: 'As Receitas da Minha Querida Mãe'. Ora, não posso deixar de pensar que Fernando Pessoa daria tudo para poder ter esta obra na sua coleção, de ter tido o prazer de folhear a sapiência contida nestas páginas. É uma pena, mas a vida é curta. Pessoa teria sido muito menos lúgubre e decadentista se tivesse sido contemporâneo destas poetizas da culinária, cujas páginas bebem de palavras belas, que cheiram a fritos. Entre os seus segredos literários (e culinários), da dona Dolores e da sua cria, Katia, estão algumas especialidades: sopas de cavalo cansado (que deram ao Ronaldo durante toda a sua infância e adolescência, e que ajuda a explicar muita coisa), as punhetas de bacalhau; uma míriade de pratos com grelos (a Dolores avisa contudo que o Cristiano é o que menos aprecia grelinhos), muquecas de peixe, e espaço há ainda para a matriarca da família Aveiro ensinar a Kátia a chupar cabeças de camarão como deve de ser. Não se desperdiça nada, diz ela. Tem razão, sim senhor: assim sendo abram o livro e aproveitem o azeite que escorre (atenção que pode jorrar litros e litros), que podem aproveitar para saltear uns espinafres com alho, ou uns espargos com salsicha durante largos meses. Ninguém passa fome com esta dupla.




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