23.7.17

Quando te cai a ficha a ver friends

Ando muito ocupado. Ocupadíssimo a aperceber-me que os personagens dos Friends têm a minha idade, ou melhor, que eu cheguei à idade deles na série. Isto a mim choca-me profundamente. Ou pensar, por exemplo, que a Jennifer Aniston tinha 25 anos quando a série começou... faz-me cair a ficha e perceber que estou mesmo a ficar uma carcaça. É que, assim como quem não quer a coisa, a primeira vez que vi a série, avulso, na RTP2, tinha a cara em obras e deixava de estudar geografia (em véspera de teste) para ir jogar Sims - foi por isso há muito, muito tempo; Agora, a ver a série pela terceira vez, ouvir das suas bocas a referência aos seus 27 anos (em média), deixa-me com suores frios. Sou assim, nasci assim e vou ser sempre assim - como a minha mãe - que há mais de 10 anos permanece com 46. Entretanto também me apercebo que quanto mais sei que tenho uma miríade de séries novas para ver, mais tenho vontade de rever as clássicas. 

Para começar faço questão de ouvir religiosamente toda a música do genérico, do principio ao fim, já que diz muito sobre a minha vida: "So no one told your life was gonna be this way"... verdade, ninguém me avisou de antemão que ia dar nisto. Andei eu a comer papa cerelac durante anos para afinal acabar no ginásio a tentar ganhar massa muscular. "Your job is a joke", pois que não foge muito disto, realmente, e olhem que o Morrissey já me tinha avisado com o "I was looking for a job, and then I found a job, and heaven knows I'm miserable now...". Ver malta mais nova que eu a exercer jornalismo e a escrever enquanto olha para o teclado, com apenas dois dedos a funcionar, diz-me que bati no fundo (além de que ninguém sabe reconhecer as minhas qualidades de Sonic a escrever). "You're broke". Chego à conclusão que sim. Sobretudo quando constantemente, onde trabalho, vejo notícias sobre contratações milionárias e malta com 20 anos a receber 90 mil euros mês, por isso, sim, estou nas lonas. "You're love life´s D.O.A" também é real, fui (felizmente ou infelizmente, não chego a saber) dotado de uma racionalidade que me permite ver as coisas como são, há nenufares que acreditam mais no amor que eu. Já para não falar na parte do "When it hasn't been your day, your week, your month, or even your year...". 

Uma coisa que temos em comum: não vivemos sozinhos. Aliás, vivemos com pessoas a mais. Se bem que, não vivendo todos juntos, eles passam a maior parte do tempo em casa da Mónica, logo vai dar ao mesmo. Curioso é que nunca os vejo a discutir sobre limpezas, nem sobre quem é que compra sacos do lixo (e quem os leva para baixo). Porém eles são todos amigos e raramente se chateiam. Claramente não é nosso caso, já que o único que posso considerar amigo rouba-me papel higiénico e desaparece-me com os panos de cozinha. Situações que me levam a querer que exista uma catástrofe em Lisboa, para que as rendas baixem e eu possa comprar 30 metros quadrados por um preço simpático, para, evidentemente, viver sozinho. Meia dúzia de mortos, também não era preciso mais.

Outra coisa que mudou, entendo hoje, foi a minha perceção dos personagens. Lembro-me de não gostar particularmente das piadas do Chandler Bing (eu sei, como é que é possível???) e de não simpatizar muito com a Rachel. Hoje gosto de todos de igual forma. Porém a Phoebe será sempre a minha personagem preferida, e nisso não há volta a dar. É a personagem que traz uma componente de total nonsense e que acaba por desconstruir as situações de uma forma muito particular. De lembrar que a Lisa Kudrow venceu um American Comedy Award. Entretanto, como seria de esperar, ao longo dos anos foram sendo conjeturadas pelos fãs várias teorias. Umas mais interessantes e mais rebuscadas que outras. Entre elas a de que a Monica seria, na verdade, meia-irmã do Ross, o que ajudaria a responder à relação com a mãe. Ainda assim a mais interessante, que surgiu recentemente, e que não chega bem a ser uma teoria (já com direito a feedback dos criadores da série), é a de que, e passo a citar, porque não me está a apatecer traduzir: "I'd have ended Friends by revealing it was all the meth-addled fantasy of a homeless Phoebe as she stared through the window of Central Perk. Each kooky aside, each time she made everything about her (...) it all makes sense. All 10 seasons were merely her fevered imagination, projecting herself into the lives of the others. All she ever wanted was... Friends. The final schene would be Phoebe walking away from Central Perk, with the Ross, Rachel, Joey, Chandler and Monica characters making a reference to the crazy lady who always stares at us» (...). Ok, esqueçam, seria demasiado deprimente, até para mim que gosto de finais dramáticos e decadentes. 

Toda a gente sabe como a série acaba. Parece um final simplista, fácil, que sabe a pouco, mas na verdade parece-me antes realista, o que acaba por fazer a ponte com o que os próprios atores passaram aquando do fim das gravações. Um final a fazer-nos lembrar que as relações de amizade não duram para sempre e mesmo que sobrevivam, dificilmente voltam a ser o que eram. Está bem que já não me lembro de todos os pormenores do final, mas ficou a ideia de vazio (literalmente), sem grande espaço para um final de 'viveram felizes para sempre'. Recordo-me da casa da Mónica sem nada e do fechar da porta para não mais se abrir, já que é mesmo pouco provável que haja um regresso (e ainda bem que assim é). Aquela ideia essencial de mudança, de fim de um ciclo e de algo que nunca mais se pode voltar a repetir. 






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